Lírio-lua: a poesia de Ted Hughes para crianças

Foi com grata surpresa que, flanando no sebo Iluminações – o melhor sebo de Campinas e provavelmente um dos melhores acervos de literatura e livros de humanas do Brasil –, descobri o livro Moon-Whales and other moon poems [Baleias-da-lua e outros poemas lunares] do poeta Ted Hughes. Além da bonita tradução de Birthday Letters, por Paulo Henriques Britto, alguns livros de Hughes, três infantis, foram traduzidos no Brasil. Por pura ignorância, não sabia que o poeta laureado havia explorado esse gênero. Meu espanto aumentou ainda mais quando descobri que Ted Hughes na verdade escreveu mais de quinze livros infantis dos anos sessenta aos noventa, entre prosa e poesia. Apenas conhecia, desde pequena, O terno tanto faz como tanto fez, de Sylvia Plath, que é um dos meus livros infantis preferidos. Certamente o nascimento dos filhos Frieda e Nicholas motivou Plath e Hughes a adentrarem no universo da literatura infantil: há muita controvérsia sobre as circunstâncias do divórcio do casal e da morte de Plath, mas não resta dúvida de que os poetas travaram durante alguns anos uma relação sólida, marcada por um intenso intercâmbio de leituras e exercícios criativos. Muito diferente do livro de Plath, no entanto, o ricamente ilustrado Moon-whales é repleto de criaturas fantásticas – baleias, flores, bruxas e até repolhos – que são ao mesmo tempo encantadoras e um pouco sinistras, cercadas por uma atmosfera misteriosa. Como a lua, seu habitat natural, possuem uma face clara e outra escura. Os poemas, assim, têm uma beleza estranha, além de um humor leve que, imagino, agrade as crianças.

O poema que escolhi para traduzir, um tanto arbitrariamente dentro da extensa coletânea, é “A moon-lily”. O eu-lírico apresenta esse peculiar lírio da lua. Na realidade, moon-lily é uma delicada flor nativa americana, extremamente tóxica. No universo fantástico de Hughes, além de branco e alto, esse lírio também canta. Assim como outros no livro, a apresentação é feita à distância, com tom semelhante ao de um estrangeiro falando com outro. Com apenas algumas pinceladas de rigor paterno, descobrimos os cuidados que a planta exige. Mesmo bem cuidada, porém, a planta cumpre um ciclo próprio e inevitavelmente morre. O fim é triste, mas não trágico. Sem querer ler o poema à luz da biografia da família Hughes, há uma calma representação da morte como fato natural. Abaixo, minha tradução, o poema original e, como de praxe, links úteis:

 

Um lírio-lua

 

Maravilhosamente branco é o lírio-lua.
Mas isso não é tudo, oh não, continua.

Quando ele alcança sua plena altura
Mas antes que seu botão inchado apresente brancura

Achas que ouviste a voz de um fantasma em casa –
Ela sussurra e ri, então não é uma rata.

Na noite seguinte ela é uma alegre cantarola.
Vá olhar o teu lírio, verás um fio de pétala branca saindo para fora.

Na noite seguinte é uma cantoria – ao longe
Mas muito clara e doce, e onde quer que te encontres.

A voz está sempre no quarto ao lado.
Lá no jardim, teu lírio está desabrochado.

Por dias então, enquanto tua flor está cheia e orgulhosa
Aquela estranha voz feminina, gentil e feliz, não muito ruidosa,

Vem e vai na tua casa, ao longo da madrugada.
Até que uma noite – de repente – chora. Alguma coisa está errada!

E sabes, lá no jardim, antes de tua saída
A flor do lírio começa a ruir, sua cor de neve escurecida

Então vem as noites de silencioso choro, sem sono para ti
Até que o murchar de teu lírio já esteja no fim.

A moon-lily

Marvellously white is the moon-lily.
But that is not all, O no, not nearly.

When it has reached its full height
But before its swelling bud shows any white

You think you hear a ghost inside your house –
It whispers and titters, so it is not a mouse.

By next night it is a happy humming.
Now go look at your lily, you will see a split of white petal coming.

Next night it is a singing – very far
But very clear and sweet, and wherever you are

The voice is always in some other room.
Down in the garden, your lily is in bloom.

For days now, while your flower stands full and proud,
That strange lady’s singing, gentle and happy, and never very loud,

Comes and goes in your house, and all night long.
Till one night – suddenly – weeping. Something is wrong!

And you know, down in your garden, before you go
The lily has started to fade, there is brown on her snow.

Then come nights of quite sobbing, and no sleep for you,
Till your lily’s withering is quite through.

Mais sobre a vida de Hughes.

Tradução de outro poema de Hughes.

 

 

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3 comentários sobre “Lírio-lua: a poesia de Ted Hughes para crianças

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