Emily Dickinson: poeta em solidão

Com alguma frequência, ao mencionar mulheres escritoras, me perguntam sobre aquela poeta que vivia reclusa. O mito de Emily Dickinson povoa o imaginário dos amantes de poesia. Viveu a vida toda na pacata Amherst durante o século XIX. Em dado momento, mal saía de casa. Recusava o casamento, mantinha um círculo restrito de amizades, cumpria pequenos rituais excêntricos. Anos após sua morte, críticos tentaram compreender os motivos de tanto isolamento: disseram que Dickinson teve um amor impossível (há quem diga com um homem casado, outros acreditaram que foi com uma mulher), e que por isso decidiu abdicar da vida social. Hoje, parece claro que não há uma forma simples de explicar a vida que Dickinson decidiu levar: sua rebeldia foge muito das expectativas que temos sobre poetas, homens ou mulheres. Dickinson tem um senso de humor que raramente se manifesta sem crueldade, mobiliza imagens que sugerem dor física e sofrimento, escreve sob ritmo fragmentado e muito peculiar. Mas Dickinson é também uma poeta da delicadeza, dotada de uma visualidade atenta ao detalhe, uma mestra da rima e da pausa. Publicou menos de dez poemas em vida e deixou centenas guardados. Muito de sua vida e de suas leituras permanecem um segredo enquanto sua poesia segue sendo fascinante. 

E, no Brasil, o caso de Dickinson é ilustre pela circulação: Aíla de Oliveira Gomes, Augusto de Campos, Idelma Ribeiro de Faria, Jose Lira, são apenas alguns dos tradutores por trás de antologias. Outras traduções esparsas são extremamente difíceis de quantificar, pois há dezenas de nomes em jogo. Quantos já aceitaram esse imenso desafio! O leitor brasileiro conta com diversas opções e uma razoável fortuna crítica. Assim, optei por traduzir o célebre “Because I could not stop for death” e o menos circulante no Brasil, mas que para mim é um dos poemas lindos de todos os tempos, “Before I got my eye put out”. 

Porque não pude parar para a Morte

Porque não pude parar para a Morte –
Ele parou para mim por bondade –
Na carruagem só íamos Nós –
E a Imortalidade.

Dirigimos devagar – Ele não quis correr
E eu deixara de lado
Meu trabalho e meu lazer
Em prol de sua Civilidade –

Passamos pela Escola, onde Crianças corriam
No Recesso – no Ringue –
Passamos os Campos dos Grãos Atentos –
Passamos o Sol Poente

Ou melhor – Ele passou por Nós –
O Orvalho era tremor e frio
Pura Teia, minha Túnica –
Minha Capa – puro Tule –

Pausamos em uma Casa que parecia
Um Edema do Solo –
O Telhado mal se via –
A Cornija – sob o Solo

Desde então – há Séculos – porém
Parece mais curto que o Dia
Compreendi que as Cabeças dos Cavalos
Se voltavam para a Eternidade  

Antes de ter meu olho arrancado 

Antes de ter meu olho arrancado –
Eu gostava também de ver
Como outras criaturas, que têm olhos –
E não conhecem outra maneira –

Mas me fosse dito, Hoje,
Que poderia ter o Céu
Pra mim, te digo que meu Coração
Se dividiria, pelo tamanho meu –

As campinas – minhas –
As montanhas – minhas –
Todas as matas – estrelas sem fim –
Quantos meio-dias eu suportasse –
Entre meus olhos finitos

A dança das Aves em Rasante –
As manhãs da Rodovia de Âmbar –
Minhas – para olhar quando quiser
Notícias me alcançariam morta –

Mais segura – suponho – apenas com minha alma
Sobre as vidraças
Onde outras criaturas pousam os olhos –
Incautos – do Sol

Tradução: Júlia Rodrigues

Because I could not stop for Death – 479

Because I could not stop for Death –
He kindly stopped for me –  
The Carriage held but just Ourselves –  
And Immortality.

We slowly drove – He knew no haste
And I had put away
My labor and my leisure too,
For His Civility –

We passed the School, where Children strove
At Recess – in the Ring –  
We passed the Fields of Gazing Grain –  
We passed the Setting Sun –

Or rather – He passed us –
The Dews drew quivering and chill –
For only Gossamer, my Gown –
My Tippet – only Tulle –

We paused before a House that seemed
A Swelling of the Ground –
The Roof was scarcely visible –
The Cornice – in the Ground –

Since then – ‘tis Centuries – and yet
Feels shorter than the Day
I first surmised the Horses’ Heads
Were toward Eternity –

Before I got my eye put out – 336

Before I got my eye put out –
I liked as well to see
As other creatures, that have eyes –
And know no other way –

But were it told to me, Today,
That I might have the Sky
For mine, I tell you that my Heart
Would split, for size of me –

The Meadows – mine –
The Mountains – mine –
All Forests – Stintless stars –
As much of noon, as I could take –
Between my finite eyes –

The Motions of the Dipping Birds –
The Morning’s Amber Road –
For mine – to look at when I liked,
The news would strike me dead –

So safer – guess – with just my soul
Opon the window pane
Where other creatures put their eyes –
Incautious – of the Sun –

 

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