Perambulando com Langston Hughes

Um dos livros de Langston Hughes se debruça sobre biografias. Hoje bastante esquecido, Negros notáveis dos Estados Unidos apresenta figuras de destaque da intelectualidade estadunidense através dos séculos. Indo de Phillis Wheatley, poeta negra escravizada nos Estados Unidos, até Jackie Robinson, primeiro jogador de beisebol negro a fazer parte da Grande Liga, o livro traz desventuras de seus personagens. Não fosse Hughes o autor, ele bem poderia ser um deles. Sem dúvida uma figura notável, foi um dos grandes expoentes do movimento conhecido como Harlem Renaissance. Sua obra e sua atuação pública contribuíram em grande medida para a imagem de vigor que o movimento ainda carrega. Hughes escreveu também poemas, peças, romances, ensaios.

Curiosamente, ele esteve fora do Harlem durante muitos anos da dita Renascença (anos 1920-1930). Ao longo de sua vida, percorreu boa parte dos Estados Unidos, além de Cuba, México, Ilhas Canárias, Açores, a costa oeste da África, França, Espanha, Rússia, Japão, entre outros. Não por acaso, sua autobiografia, de 1956, tem o título I wonder as I wander: an autobiographical journey (um jogo que, em tradução deselegante, significa “Eu penso enquanto perambulo”). Hughes é um visitante generoso: abraça os costumes populares e a cultura local, sem abrir mão de um olhar crítico diante de disparidades sociais, e tende a destacar o que cada lugar tem de melhor. Sua autodefinição de alguém sempre em movimento é certeira: ele frequentou a academia (foi aluno da Lincoln University, onde recebeu prêmios) e exerceu trabalhos braçais (entre outros, os de marinheiro e porteiro); conheceu a fundo seu próprio país e visitou tantos outros; nunca deixou de experimentar diferentes gêneros e de estar atento à cena política dos Estados Unidos. Para além do pioneirismo de muitas de suas abordagens temáticas, acredito, o legado de Hughes consiste fortemente nesse trânsito. Essa abertura para o mundo parece ter sido essencial no refinamento de uma escrita sensível ao cotidiano e às heranças históricas e que, conscientemente, evitou exotismos frouxos e concessões da escrita comercial, meio muito frequente de subsistência entre autores e artistas de seu tempo. Hughes é uma importante figura literária também por ter incorporado gírias populares  ao falar pela classe trabalhadora (aliás, dentro e fora da poesia) e, assim, ter denunciado injustiças sociais e sonhado com um país mais pacífico, menos racista, e que também valorizasse as influências africanas e a cultura urbana na construção de uma identidade nacional.

Na falta de acesso a uma antologia abrangente da obra de Hughes, vou deixar que ele se apresente a si próprio: no trecho abaixo, retirado da autobiografia, Hughes relata sua experiência lendo poesia no sul dos Estados Unidos durante os anos 1930 (em um período de imensas tensões entre racistas e negros). Ele traz alguns poemas e apresenta, em tom anedótico, como o roteiro de sua apresentação foi construído e o efeito pretendido a cada momento.

Fazendo a poesia pagar as contas – Langston Hughes

Na metade do inverno eu já havia trabalhado em um roteiro de leitura de poesia que quase nunca fracassava em provocar, após cada poema, algum tipo de reação no público – risada, aplauso, grunhido, resmungo, suspiro, ou ‘Amém!” Eu começava minha apresentação de forma muito simples, dizendo onde nasci no Missouri, que cresci em Kansas no coração geográfico do país, e que era, portanto, muito norte-americano, que fazia parte de uma família que estava sempre se mudando; e falava algo sobre minhas viagens pelo centro-oeste e sobre como, aos quatorze anos, em Lincoln, Illinois, eu fui eleito o poeta da classe na oitava série e desde então continuei escrevendo poesia.

Após essa introdução bigráfica eu lia para a plateia meus primeiros poemas, escritos no ensino médio, e mostrava como minha poesia havia mudado ao longo dos anos. Para dar início à leitura, eu geralmente selecionava versos escritos quando tinha aproximadamente quinze anos:

Mandei lavar a roupa
Novinha que eu quis
Eu coloco ela mas
Ainda ‘tô infeliz

Comprei um chapéu novo
Que é bom demais
Mas queria de volta
A moça que me apraz

Meus sapatos novinhos
Não machucam o pé
Mas não tenho ninguém
Pra me fazer cafuné

Então eu dizia, “Que poema  triste, não é?” Todo mundo ria. Então eu lia alguns dos meus poemas-jazz para que meus ouvintes rissem mais. Eu queria que eles rissem muito no começo para que mais adiante na noite eles não rissem em poemas como “Porteiro”

Devo dizer
Sim. senhor
Toda hora, a você
Sim, senhor!
Sim, senhor!

Todos os dias
Escalando uma imensa montanha
De sim, senhores!

Homem branco, rico e velho
Domina o mundo.
Mim dá o sapato pra engraxar

Sim, senhor, chefe!
Sim, senhor!

A essa altura meus ouvintes não-literatos estariam prontos para pensar em termos de seus próprios problemas. Então eu lia poemas sobre mulheres domésticas, trabalhadores nas estradas da Flórida, estudantes negros e pobres esperando desfazer a escuridão da ignorância e do preconceito, e outro sobre os rendeiros de Mississippi.

Ouvi falar dos pretos
Levados pro campo
Arando, plantando, enxadeando
Pra colher algodão

Algodão colhido
E dever cumprido
O dinheiro é do patrão
Você não ganha um tostão

Ouvi falar dos pretos
Levados pro campo
Arando, plantando, enxadeando
Pra colher algodão

Muitos dos meus versos eram documentários, jornalistícos e temáticos. Por todo o Sul naquele inverno eu li poemas sobre a condição dos Scottsboro Boys¹.

A Justiça é uma deusa cega
Disso nós negros sabemos:
A faixa cobre duas feridas podres
Onde havia olhos, quem sabe

Geralmente as pessoas ficavam muito atentas. Mas se em algum momento do programa minha plateia ficasse inqueita – como as plateias ficam às vezes, não importa o que o palestrante esteja dizendo – ou se eu olhasse para baixo do palco e visse que alguém começava a dormir – eu tirava minha carta da manga, um poema chamado “Cruz”. Quando lido dramaticamente, eu descobrira, o poema fazia qualquer um, negro ou branco, se ajeitar e prestar atenção. É um poema sobre miscigenação – um tema muito polêmico no sul. O primeiro verso – usado para acordar os dorminhocos – era lido com forte intonação

Meu velho pai é um branco velho …

E isso animava qualquer um que estivesse distraído. Então eu prosseguia em tom mais ameno.

Minha velha mãe é negra

Então, com uma veia trágica, ponderada, triste e baixa:

Mas se alguma vez ofendi meu pai branco
Retiro minhas ofensas.

Se alguma vez ofendi minha mãe negra
E desejei que ela fosse pro inferno
Me arrependo dessa vontade
E desejo pra ela felicidade

Meu velho morreu na mansão
Mainha morreu no barraco
Me pergunto onde vou morrer
Não sendo branco nem mulato

Aqui eu deixava minha voz sumir em um longo silêncio. Então eu ficava seguro por um bom tempo, porque sabia que tinha de novo a completa atenção dos meus ouvintes.

Geralmente após um balanço da situação racial no país, com uma listagem otimista de conquistas passadas dos negros e posibilidades futuras, eu terminava a noite com:

Eu, também, canto os Estados Unidos

Sou o irmão mais escuro
Eles me mandam
Comer na cozinha
Quando tem visita,
Mas dou risada
E como bem
E fico forte

Amanhã
Vou me sentar à mesa
Quando a visita chegar
Ninguém ousará
Me dizer
“Vá pra cozinha”
Nesse dia

Além disso,
Vão ver
Como sou lindo
E terão vergonha –

Eu, também, sou os Estados Unidos

1- Hughes faz referência ao caso dos nove jovens negros que viajavam de trem quando foram provocados por um grupo de jovens brancos e racistas, em 1931. No embate,  os provocadores levaram a pior. Na saída, porém, os jovens brancos buscaram a polícia e denunciaram o grupo por agressão. Duas mulheres brancas falsamente acusaram os rapazes negros de estupro  Todos foram condenados à morte no estado do Alabama e, mesmo sem terem tido a sentença executada, passaram anos na prisão antes de serem perdoados. Um dos jovens morreu na prisão durante um conflito.

Fragmento de I wonder as I wander, de Langston Hughes (1956)

Tradução: Júlia Rodrigues


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