Walt Whitman, relva e liberdade

Uma coisa difícil de encontrar é um leitor de poesia norte-americana que não goste de Walt Whitman. Quem o conhece tende a ficar apaixonado. Há muitos motivos para isso: a poesia de Whitman é, na maior parte do tempo, solar e triunfante. Ele buscou ao longo de toda sua vida formular uma voz que abraçasse a diversidade. Louvou a liberdade e a democracia em seus poemas. Mesmo com suas dificuldades específicas, a poesia de Whitman é bastante dialógica. Seus poemas são repletos de interpelações, eles parecem sempre estar se dirigindo a alguém, convidando ou desafiando. Costumo pensar em Whitman como o poeta dos imperativos: ele utilizava esse recurso para se dirigir a um outro com vigor e entusiasmo.

A primeira publicação de Leaves of Grass (sua grande obra) apenas continha sua fotografia, posando de trabalhador, sem incluir seu nome na condição de poeta e autor do volume. Essa excêntrica primeira edição foi tomada como uma piada entre críticos da época. Posteriormente, no entanto, Leaves of Grass tornou-se uma das obras seminais da literatura estadunidense. Hoje, seu ritmo único, que transgrediu as convenções métricas, bem como a liberdade no tratamento de temas líricos são celebrados como revolucionários para a poesia de língua inglesa.

Esse sonho de uma poesia sem autor (um bocado militante, aliás) não foi levado adiante. Whitman assinaria a segunda edição de Leaves of Grass. E não é exagerado dizer que ele tinha uma personalidade memorável e fascinante. Exerceu diferentes ofícios, sendo um deles o de voluntário hospitalar durante a Guerra Civil americana (uma experiência que o marcaria profundamente). Whitman, de origem humilde, teve uma precária educação formal que sempre foi compensada por seu ávido autodidatismo: o poeta visitava museus, lia obsessivamente e se engajava em debates políticos todos os dias. Ainda aos doze anos, Whitman viu seu primeiro texto ser publicado em jornal. Aos quinze, já era um trabalhador independente. Mais tarde, faria campanhas. Todas essas experiências de alguma forma se refletem em sua poética, pois Whitman foi um desses poetas em constante metamorfose: a cada nova edição, Leaves of Grass mudava significativamente. À segunda edição, Whitman acrescentou também “Calamus, conjunto de poemas que celebrava a sexualidade; na última edição, porém, Whitman, bastante doente, tornou-se mais sombrio. Seu impulso de agregar formas de vida diferentes, antes otimista e enérgico, contaminou-se por uma ansiedade diante da morte. Até hoje, leitores de Whitman se referem a essa última edição como a do “leito de morte”. Fernando Pessoa, via heterônimo Álvaro de Campos, resumiu lindamente esses contrastes na “Saudação a Walt Whitman”:

Cantor da fraternidade feroz e terna com tudo,

Grande democrata epidérmico, contíguo a tudo em corpo e alma,

Carnaval de todas as ações, bacanal de todos os propósitos

Irmão gémeo de todos os arrancos

Optei por traduzir dessa vez poemas mais curtos de Whitman, que costuma ser lembrado por seus vigorosos poemas longos. A concisão altera um pouco o efeito da leitura, mas temos aqui o mesmo poeta inconfundível. Os poemas de “For You O Democracy” em diante integram a supracitada sessão “Cálamo” (que pode significar tanto um tipo de junco, quanto um instrumento feito a partir dessa matéria-prima). Em sentido figurado, refere-se também a um modo próprio de escrita, similar a “estilo”.

Em “As Adam Early In The Morning”, a comparação do sujeito com Adão sugere uma solidão poderosa que funda um novo dia revigorante. Em “For You, O Democracy”, há uma fusão entre invocação e homenagem à democracia: o poeta promete preparar o terreno fértil para um ambiente democrático efetivo. O principal ingrediente desse cenário é o companheirismo entre camaradas. “Are You The New Person Drawn Toward Me?” chegou a ser intitulado “To a New Personal Admirer” antes de sair em Leaves of Grass. Talvez seja uma das mais contundentes rejeições da história da poesia. O poeta, zombando a ingenuidade alheia, nega todos os atributos que o admirador imagina. Em “I Hear It Was Charged Against Me” também parece haver uma resposta direta a uma acusação específica, mas não há registro de nada tão pontual. Como já se notou, o poema é um desafio a todas as instituições (para os ouvidos da época, “escravidão” e “casamento” seriam associações imediatas) incluindo as poéticas.

Como Adão de manhã cedo

Como Adão de manhã cedo,
Caminhando adiante, saído da alcova, revigorado pelo sono,
Fique atento a mim enquanto passo, escute minha voz, aproxime-se
Me toque, toque meu corpo com a palma de sua mão enquanto passo,
Não tema meu corpo.

Para você, Ó Democracia

Venha, farei o continente indissolúvel,
Farei a espécie mais esplêndida que o sol já tocou,
Farei divinas terras magnéticas,
                   Com o amor dos camaradas
                         Com o duradouro amor dos camaradas.

Vou plantar um companheirismo firme como as árvores ao longo dos rios da América, e
ao longo das margens dos grandes lagos, e sobre as pradarias todas,
Farei cidades inseparáveis com seus braços sobre os pescoços uns dos outros
                    Pelo amor dos camaradas
                          Pelo másculo amor dos camaradas.

São de mim para você, Ó Democracia, para servi-la ma femme!
Para você, para você estou excitando esses cantos.

É você o novo alguém atraído a mim?

É você o novo alguém atraído a mim?
Para começar fique sabendo, eu certamente sou diferente do que você supõe;
Você supõe que vai encontrar em mim seu ideal?
Você pensa que é tão fácil me transformar em seu amante?
Você pensa que a amizade comigo seria uma genuína satisfação?
Você pensa que sou confiável e fiel?
Você vê além dessa fachada, esse suave e tolerante tipo meu?
Você supõe que está avançando por um terreno verdadeiro na direção de um verdadeiro heroi?
Não lhe ocorreu Ó sonhador que tudo isso pode ser maia, ilusão?

Ouvi que fui acusado de

Ouvi que fui acusado de tentar destruir as instituições
Mas na verdade eu não sou nem a favor nem contra instituições,
(O que de fato tenho em comum com elas? Ou com a destruição delas?)
Apenas vou implantar na Mannahatta e em cada cidade desses Estados na terra e no mar
E nos campos e bosques, e sobre cada quilha pequena ou grande que morde as águas
Sem edifícios ou regras ou mandatários ou qualquer argumento
A instituição do caro amor dos camaradas.

As Adam Early in the Morning 

As Adam early in the morning,
Walking forth from the bower refresh’d with sleep,
Behold me where I pass, hear my voice, approach,
Touch me, touch the palm of your hand to my body as I pass,
Be not afraid of my body.
For you O Democracy
Come, I will make the continent indissoluble,
I will make the most splendid race the sun ever shone upon,
I will make divine magnetic lands,
                   With the love of comrades,
                      With the life-long love of comrades.
I will plant companionship thick as trees along all the rivers of America, and along the shores of the great lakes, and all over the prairies,
I will make inseparable cities with their arms about each other’s necks,
                   By the love of comrades,
                      By the manly love of comrades.
For you these from me, O Democracy, to serve you ma femme!
For you, for you I am trilling these songs
Are You the New Person drawn toward Me?
Are you the new person drawn toward me?
To begin with, take warning, I am surely far different from what you suppose;
Do you suppose you will find in me your ideal?
Do you think it so easy to have me become your lover?
Do you think the friendship of me would be unalloy’d satisfaction?
Do you think I am trusty and faithful?
Do you see no further than this façade, this smooth and tolerant manner of me?
Do you suppose yourself advancing on real ground toward a real heroic man?
Have you no thought, O dreamer, that it may be all maya, illusion?
I Hear It was Charged against Me
I hear it was charged against me that I sought to destroy institutions,
But really I am neither for nor against institutions,
(What indeed have I in common with them? or what with the destruction of them?)
Only I will establish in the Mannahatta and in every city of these States inland and seaboard,
And in the fields and woods, and above every keel little or large that dents the water,
Without edifices or rules or trustees or any argument,
The institution of the dear love of comrades.

Domínio público! Todas as obras de Whitman disponíveis, bem como lista de traduções mundo afora e outros dados no Whitman Archive
Para o leitor de língua portuguesa, um verdadeiro dossiê feito pela Revista prosa, verso e arte
Uma anedota divertida sobre o encontro entre Oscar Wilde e Whitman

E o sempre ótimo Suplemento Cultural de Pernambuco com uma também ótima apresentação de Whitman por Guilherme Gontijo Flores 

 


2 comentários sobre “Walt Whitman, relva e liberdade

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