H.D., uma rosa, uma taça

Não é a primeira vez que falamos de Imagismo aqui no blog. Já citamos o movimento nas traduções de Ezra Pound e William Carlos Williams, que estão entre os mais famosos imagistas. Hilda Doolittle, poeta americana que emigrou para a Inglaterra no começo do século XX (assim como tantos outros escritores), é também um nome central do momento. Doolittle publicava como “H.D” – assinatura imagista por natureza. Ela foi tradutora do grego e estudou amplamente mitologia – herança que encontramos ao longo de toda sua obra. H.D. foi também famosa por ter sido paciente e colaboradora de Freud (em “Tributo a Freud”, traçou um retrato bastante humano de seu analista e registrou como sua experiência no divã ajudou a lhe dar confiança como poeta e também em sua vida pessoal). H.D. escreveu ainda memórias sobre Ezra Pound ambientadas em uma efervescente Inglaterra.

A poesia de H.D já era imagista quando Pound ainda estava afinando os princípios dessa poética. O contato com os poemas de H.D., bem como a extrema coincidência entres eles e suas ideias o deixaram encantado.  Como consta em um manifesto, que saiu em periódico da época:

  1. Usar a linguagem do discurso comum, mas empregar a palavra exata, não uma quase-exata, não uma palavra meramente decorativa

  2. Acreditamos que a individualidade de um poeta frequentemente pode ser melhor expressa em verso livre do que em formas convencionais. Em poesia, uma nova cadência significa uma nova ideia.

  3. Liberdade absoluta na escolha do tema.

  4. Apresentamos uma imagem. Não somos uma escola de pintores, mas acreditamos que a poesia deva oferecer particulares exatamente e não lidar com vagas generalidades, não importa quão magníficas e sonoras. É por essa razão que nos opomos à poesia cósmica, que nos parece se esquivar das reais dificuldades de sua arte.

  5. Produzir uma poesia que é dura e clara, nunca embaçada ou indefinida.

  6. Por último, a maioria de nós acredita que a concentração é a essência mesma da poesia

Nos poemas de H.D que trazemos hoje, ela lida diretamente com essa quinta diretriz da dureza, revisitada na imagem da rosa (recorrente nos poemas imagistas para dar ensejo a reflexões sobre a forma poética). Em “Sea Rose”, poema retirado de seu primeiro livro, a rosa é dura [harsh]. H.D. descaracteriza a rosa de tal forma que o leitor do poema é convidado a revisitar os ideias de perfeição física (o perfume ácido não é mais perfeito, justamente porque é mais árduo, difícil de conquistar, do que o aroma suave das begônias?)

Cabe ressaltar, porém, que os preceitos imagistas (tanto para Pound, H.D. ou Williams) seriam mais referenciais do que uma camisa de força. H.D se dedicou também à escrita de poemas longos, carregados de alusões – embora cifrados, mantém um esforço de concisão bastante caro aos imagistas. É o caso do segundo poema do dia, “Wine Bowl”, uma invocação da embriaguez cheia de figuras míticas.

Rosa do mar

Rosa, rosa árdua
marcada e de poucas pétalas
flor escassa, magra
esparsa de folhas

mais preciosa
que a rosa fresca
singular no caule –
você cai na corrente.

Prematura, de pequenas folhas,
você é arremessada na areia
é erguida
na areia áspera
que voa com o vento.

A begônia consegue
escorrer um perfume assim tão ácido
petrificado na folha?

Vaso de vinho

Vou me levantar
do meu juramento
com os mortos
Vou adoçar minha taça
e meu alimento
com dom;
Vou talhar um vaso de vinho,
para o vinho branco
e para o tinto;
Vou invocar um Sátiro pra dançar
um Centauro,
uma Ninfa,
e um Fauno;
Vou pintar
um Rei Guerreiro
um Gigante,
uma Náiade,
um monstrengo.
Vou cortar em torno da cratera
coisa simples
e caseira
folhas de videira
ou asa de gaivota;
Vou trabalhar em cada etapa
até ficar exausta
e meu coração:
no meu crânio,
onde a visão deu à luz
virá vinho
derramará canto
na terra quente,
da flor e da doce
montanha,
tomilho,
flor do mato,
cidreira e gramado;
no meu crânio,
de onde a visão tomou vôo
virá vinho
derramará canto
da noite fria
da prata e lâmina da lua,
da estrela
e do beijo do sol ao meio-dia;
Vou desafiar a flauta
e a lira das cordas
a cantar mais doce
a louvar mais alto
a fragância e a doçura
da jarra de vinho,
até que cada amante
convoque seu par,
a ofertar uma rosa
onde estão todas as flores
nas profundezas da primorosa cratera;
flor cairá sobre flor
até que o banho tinto
inflame todos
com íntimo fervor;
até que
os homens que estão distantes
se animem
sentindo a uva
e o vale
na taça;
os homens que dormem no bosque
vão se levantar
ouvindo o sobe e desce
da maré,
atraídos pelo feitiço do mar,
o vaso vai enredar e encantar
homens que rastejam de amor
até que queiram apenas
a profusão de estrelas da noite;
os que moram bem no interior
vão em busca de barcos;
o pescador do alto-mar
lançando redes
vai abandoná-las
pelo trigo e pelo barro;
homens que vagueiam
irão em busca de casa
homens em casa
irão embora.

Vou me levantar
do juramento
com os mortos
Vou adoçar minha taça
e meu alimento
com dom;
Vou talhar um vaso de vinho,
para o vinho branco
e para o tinto.

Sea Rose

Rose, harsh rose,
marred and with stint of petals,
meagre flower, thin,
sparse of leaf,

more precious
than a wet rose
single on a stem—
you are caught in the drift.

Stunted, with small leaf,
you are flung on the sand,
you are lifted
in the crisp sand
that drives in the wind.

Can the spice-rose
drip such acrid fragrance
hardened in a leaf?

Wine Bowl

I will rise
from my troth
with the dead,
I will sweeten my cup
and my bread
with a gift;
I will chisel a bowl for the wine,
for the white wine
and red;
I will summon a Satyre to dance,
a Centaur,
a Nymph
and a Faun;
I will picture
a warrior King,
a Giant,
a Naiad,
a Monster;
I will cut round the rim of the crater,
some simple familiar thing,
vine leaves
or the sea-swallow’s wing;
I will work at each separate part
till my mind is worn out
and my heart:
in my skull,
where the vision had birth,
will come wine,
would pour song
of the hot earth,
of the flower and the sweet
of the hill,
thyme,
meadow-plant,
grass-blade and sorrel;
in my skull,
from which vision took flight,
will come wine
will pour song
of the cool night,
of the silver and blade of the moon,
of the star,
of the sun’s kiss at midnoon;
I will challenge the reed-pipe
and stringed lyre,
to sing sweeter,
pipe wilder,
praise louder
the fragrance and sweet
of the wine jar,
till each lover
must summon another,
to proffer a rose
where all flowers are,
in the depths of the exquisite crater;
flower will fall upon flower
till the red shower
inflame all
with intimate fervor;
till:
men who travel afar
will look up,
sensing grape
and hill-slope
in the cup;
men who sleep by the wood
will arise,
hearing ripple and fall
of the tide,
being drawn by the spell of the sea;
the bowl will ensnare and enchant
men who crouch by the hearth
till they want
but the riot of stars in the night;
those who dwell far inland
will seek ships;
the deep-sea fisher,
plying his nets,
will forsake them
for wheat-sheaves and loam;
men who wander
will yearn for their home,
men at home
will depart.

I will rise
from my troth
with the dead,
I will sweeten my cup
and my bread
with a gift;
I will chisel a bowl for the wine,
for the white wine
and red

Traduções: Júlia C. Rodrigues

Dois vídeos sensacionais do curso ModPO tratam de H.D. O primeiro é sobre “Sea Rose”, o segundo é um desdobramento de uma conversa sobre a poeta (em inglês)

Para uma inserção maior nas águas imagistas, a tag no Escamandro é bastante completa e interessante. Há uma outra apresentação sucinta aqui

Uma monografia, feita por Fernanda Rodak, sobre a tradução de H.D. e Amy Lowell


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