À procura de Bob Kaufman

Boa parte do trabalho de tradução e de crítica literária consiste em encontrar palavras. O tradutor fala por outra pessoa, enquanto o crítico fala sobre alguém ou alguma coisa. Eu faço um pouco de cada, então vejo os dois trabalhos como complementares em torno de uma mesma paixão – e uma imensa responsabilidade. Mas em alguns momentos, faltam palavras. Falta entendimento, falta criatividade. Esse é o caso hoje, mas não inteiramente. Eu tenho os poemas em mãos e posso traduzi-los. Mas como alcançar um poeta que não queria ser encontrado?

Eu disse há alguns dias que estava à procura de Bob Kaufman e de fato me faltam palavras para falar sobre ele. Porque sua poesia me causou um baque tão forte que ainda estou recuperando o fôlego – embora eu esteja lendo esse poeta há quase um ano. Eu nunca dei muita moral para a poesia beat de Jack Kerouac e Allen Ginsberg (entendia o apelo da rebeldia, mas não me seduzia pelos textos). Kaufman, por sua vez, abalou profundamente minha percepção do beatnik (palavra que ele inventou) e, mais amplamente, da poesia. Sua poética é forte, sensorial, intelectual, fantástica e extremamente subversiva. 

Mas Kaufman também causa essa embaraçosa falta de palavras porque construiu em torno de si um imenso fosso. Ele estava sempre de partida, recusou publicar seus poemas, fugia de entrevistas. Kaufman disse ao editor Robert Foye que gostaria de ser esquecido – e ele quase conseguiu com que seu trabalho desaparecesse. 

Para apresentar Kaufman, trago dois textos diferentes: o prefácio de Robert Foye, que obstinadamente procurou o poeta, a sua bela antologia, The Ancient Rain (ele apresentou Kaufman de forma precisa e sucinta).  O longo poema de Kaufman que traduzi, “Jail Poems”, foi publicado na revista Beatitude Anthology (organizada por Ginsberg, Kaufman e John Kelly em 1959).

Hoje, Kaufman faria 95 anos.

Nota do editor

“Eu quero ficar anônimo”, disse Bob Kaufman durante uma noite chuvosa num bar de São Francisco. Eu havia buscado o poeta recluso e inacessível por quase um ano quando ele apareceu de repente em um café e me puxou pelo braço até um bar desolado em Chinatown. Sozinhos um com o outro, seus pronunciamentos eram extremos e definitivos. “Não sei como você se envolve com o não-envolvimento, mas eu não quero me envolver. Minha ambição é ser completamente esquecido”. 

Ao longo das duas últimas décadas Kaufman esteve engajado na prática ativa de permanecer oculto, vivendo o mito órfico, evitando com agilidade qualquer contato público. Ele fora uma figura lendária entre jazzistas e boêmios dos anos 1940 e 50. Extravagante e perspicaz, ele foi o “beatnik” – termo inventado por ele – original. Seus três folhetos – (Manifesto Abomunista, Segundo Abril, A mente secreta sussurra?) se tornaram clássicos instantâneos da Geração Beat. Adaptando as complexidades harmônicas e a invenção espontânea do be-bop para a eufonia e a métrica poética, ele se tornou o poeta do jazz por excelência

A dedicação de Kaufman às fontes automáticas e orais de poesia era tão absoluta que foi apenas por insistência de sua esposa, Eileen, que ele começou a redigir seu trabalho. Com uma exceção, o poema sobrevivente mais antigo desse volume data da noite do primeiro encontro do casal em São Francisco, no ano de 1957. A vida deles em North Beach era centrada no Coexistence Bagel Shop, onde ele era um agregado. Carregando seu filho Parker em um estojo de clarinete, Kaufman horrorizava os moradores com suas folias desgovernadas e logo se tornou alvo de espancamentos e assédio pela polícia local.

Kaufman trocou São Francisco por Nova Iorque na primavera de 1960. Ele havia sido convidado para ler na Universidade de Harvard e começaria a escrever seu primeiro livro, Solitudes Crowded with Loneliness [Solitudes apinhadas de solidão] (New Directions, 1965). Mas os anos em Nova York foram carregados de pobreza, vício e encarceramento. “Blood fell on the Mountains” [“Sangue caiu nas montanhas”], composto após seu retorno a São Francisco em 1963, retrata sua culpa e sua desilusão. “Small Memoriam for Myself” [“Pequeno Memorial de Mim”], escrito na semana seguinte, se tornou uma última súplica. Três dias depois, Kaufman fez um voto budista de dez anos de silêncio, motivado pelo assassinato do presidente Kennedy. Na década seguinte, ele não falou nem escreveu. 

Kaufman rompeu o silêncio em fevereiro de 1973, no dia em que a Guerra do Vietnã  acabou. Ele surpreendeu um encontro local certa noite ao recitar o discurso de Thomas Becket em Assassinato na Catedral, de T. S. Eliot (“Eles sabem e não sabem, o que é agir ou sofrer”), seguido por seu próprio poema sem título que abre a seção dois (“Todos esses navios que nunca partiram”), o qual, como muitos outros poemas nesse volume, foi transcrito de uma gravação em fita. 

Ao longo dos próximos cinco anos, Kaufman compôs alguns dos melhores poemas de sua carreira – simples, sublimes, resplancescentes. No poema “The Ancient Rain” [“A Chuva Antiga”] ele renova sua preocupação com Federico Garcia Lorca, pois ele procura reconstruir a calejada psiqué do homem negro através da poesia. Em 1978, Kaufman abruptamente recusou a escrita e mais uma vez aderiu ao silêncio. 

Esse livro engloba poemas inéditos de Bob Kaufman. No final, ele recebeu o aval do poeta. Eu estou em débito com aqueles que editaram Bob Kaufman nos últimos anos, a Neeli Cherkovski, que ajudou a localizar muitos desses poemas, a Fred Martin e Peter Glassgold  da New Directions, e mais importante, a Eileen Kaufman, pois sem ela esse livro não existiria. Meu amor e gratidão.

Raymond Foye – 27 de outubro de 1980 – Nova York

Poemas da cadeia

I
Estou sentado em uma cela com vista de cruéis paralelas, 
esperando um trovão me estilhaçar em milhares de eus.
Estar em uma cela, consigo mesmo, não é o bastante.
Quero estar diante de todo preso em todo buraco.
Portas correm e bang, cada batida é definitiva, bang
O noia desapareceu num ruído vermelho, chapando seu inferno.
O cachaceiro fedido está orgulhoso porque não fuma.
Digitais deixadas em lápides negras e manchadas,
Barulhos de angústia escorrendo pelas paredes de metal batendo
Alcançam minha dor. Eu me torno parte de alguém para sempre.
Sotaques selvagens de criminosos me soam mais doces que o zumzum dos policiais
Ocupados em fechar as escotilhas das almas humanas; Carga
Destinada a portos de acusação, cais de culpa.
O que os policiais comem, Sócrates? prisioneiros ainda, velhote.

II
Pintor, pinta pra mim uma cadeia doida, celas de loucas aquarelas
Poeta, há quanto tempo existe o sofrimento? Escreva em amarelo
Deus, faz pra mim um céu no meu teto de vidro. Preciso de estrelas 
que guiem por essa atmosfera de gritos e Infernos particulares.
Entradas e saídas, dentro-fora-baixo-cima, a Gangorra cívica.
Eu – aqui – agora – Ei – aqui – agora – sempre aqui de alguma forma.

III
Num universo de celas – quem não está no cárcere? Carcereiros
Num mundo de hospitais – quem não está doente? Médicos,
Uma sardinha dourada nadando na minha cabeça.
É cara, a gente sabe umas coisas sobre coisas
Que nem jazz e cadeias e Deus.
Sábado é um bom dia para ir preso

IV
Agora eles dão um formulário novo, tremendo que nem gelatina,
Que prova que qualquer menino pode ser presidente de Moscatel.
Estão com raiva dele porque é um Deles.
Nudez branca salpicada de cinza – fedendo
Dedos abraçam a privada. Mr. America quer tomar banho
Olha! No chão, atravessando o rosto do América –
Que estou fazendo – tendo pena?
Quando ele se safar, vai ajudar a me matar
Ele deve odiar beatniks. 

V

Porcas e parafusos tinindo no estômago dele, mexidos.
Sua sociedade se despedaçou na barriga, inchada.
Veja o grande moinho de vento americano, lutando consigo mesmo.
Um ótimo estoque, do tipo que embebedou o América.
O sucesso está gravado por todo o seu rabo com marcas da rua
Um cara de sucesso mesmo,  quarenta home runs numa temporada.
Para de sofrer, Jack, você não engana a gente. Nós sabemos
Esse é o melhor país do mundo, não é?
Ele não aguentou. O cachaceiro da cela três.

VI
Foram muitos anos nessa minha curta vida
Minha alma implora uma caverna própria, como um deus jain,
Mas eu preciso continuá-la, dura como jazz, brilhando
Nessa selva escura de plástico, terra de noites longas, frias.
Meu umbigo é botão de apertar, quando quero o avesso.
Não sou mais do que uma massa de entranhas e tecido grosso,
Devo quebrar meus osso? Beber meu sangue diluído em vinho?
Devo desenterrar tristezas do meu peito?
De novo não,
Todas essas antigas bolas de fogo, ardidas de engolir, deixem quietas.
Deixem-me cuspir vapores de introspecção, pedaços de mim,
Assim, quando eu me for, ficarei no ar. 

VII
Alguém que sou não é ninguém.
Algo que fiz não é nada.
Algum lugar onde estive é nenhum.
Eu não sou eu. Para quais perguntas,
Preciso encontrar respostas,
Preciso encontrar cidades
Pra tantas ruas estranhas,
Beatniks, graças a Deus.

VIII
A noite inteira o cheiro de gente apodrecendo
Fumos subindo das piras de homens vivos
Enchem meu nariz de desgosto gasoso
Afogam meus olhos expostos de lágrimas

IX
Um ambulante vendedor de Deus estoura meu tímpano
com a parte mais chata de um bom livro bom erótico,
Ansioso pela segunda-feira e suas calculadoras.

X
Cães de olhos amarelos assobiam na noite

XI
O neném veio na cadeia hoje.

XII
Mais um dia para o inferno, repleto de glândulas flutuantes.

XIII
A cadeia, um imenso cubo de metal oco
Pendurado pela lua por uma corrente de prata
Qualquer dia Johnny Applessed vai derrubá-la

XIV
Um dia Adolph Hitler não tinha nada pra fazer.
Todos os judeus queimados, os artistas destruídos,
Adolph Hitler estava bem entediado, mesmo com Eva,
Então ele se mudou para São Francisco e se tornou um
policial comum, empenhado em espancar beatniks

XV
Três longos fios de luz
Trançados em um raio.

XVI
Estou apreensivo quanto ao meu futuro,
Meu passado deu as costas para mim.

XVII
Sombras eu vejo, formando na parede
Imagens de desejo protegidas dos meus
olhos.

XVIII
Depois de passar a noite construindo um sonho,
A manhã veio e me cegou com luz.
Agora procuro entre montes de casca de ovo
O maldito sonho que eu nunca quis.

XIX
Sentado aqui escrevendo coisas no papel
Ao invés de enfiar o lápis no ar

XX
A Batalha dos Fracassos Monumentais
Os dois lado torcendo por uma derrota boa e limpa.

XXI
Agora eu vejo a Noite, silenciosamente sufocando o dia.

XXII
Apanhado nas redes imaginárias da consciência
Choro pelos meus atos, mas acredito.

XXIII
Cidades deveriam ser construídas só de um lado da rua

XXIV
Quem não sabe lançar sombras
Jamais morre de sardas

XXV
O final sempre vem por último

XXVI
Nos sentamos em uma mesa de canto, 
Devorando um ao outro palavra por palavra
Até que não sobrou nada, esqueletos repulsivos.

XXVII
Eu me sento aqui para escrever, não ouso parar
Por medo de ver o que está fora da minha cabeça

XXVIII
Viu, Jesus, não doeu nada, não foi?

XXIX

Estou com medo de seguir minha carne por essas estreitas
Largas, duras, macias, camas femininas, mas eu vou.

XXX
Elo por elo, forjamos a corrente.
Então, descobrindo o fim ao redor do pescoço,
Recuamos

XXXI
Eu nunca vi um pão poético e selvagem,
Se visse, iria comê-lo, com casca e tudo

XXXII
De quantos anos além vem o neném?

XXXIII
Universalidade, dualidade, totalidade – um

XXXIV
O deficiente no chão, balbuciando,
Foi uma vez um homem que berrava sobre as mesas

XXXV
Venha, ajude a achatar um pingo de chuva. 

Dossiê

Facsímile de Jail Poems aqui.

Mais poemas de Bob Kaufman em português publicados na Medium, aqui.

 


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